Carta de um missionário no Chile

Que a Doce Paz de Jesucristo esteja com vocë.Fiquei muito feliz com seu contato em días de intensas angústias. Antes de informar-lhe sobre o trabalho que venho fazendo aqui no Chile, ressalto alguns pontos onde os amados poderiam colaborar comigo. Estou no Chile há quase dois anos, fui abandonado por minha Igreja no Brasil, e estamos passando por um processo bem difícil no momento. Gostaria de saber, se existe a possibilidade de o amado irmäo conseguir uma Igreja ou um Ministério que possa adoptar-me?Assumi uma Igreja na capital do Chile há 06 mëses com 09 pessoas, hoje estamos com 30 a 35 pessoas congragando em nossas reuniöes. A Igreja é (Nome da Igreja). Fazemos parte da (Nome da Convenção ou Junta Denominacional). Tenho fotos, se o irmäo se interessar, poderei enviar por e-mail. Estamos trabalhando no bairro mais PERIGOSO de Santiago, chamado "LA LÉGUA". Deus está fazendo uma obra poderosa.Meu único problema é a situacäo financeira. A vida no Chile é mui cara. A moeda chilena frente ao Real é muito forte. Necessito de U$ 550 dólares para viver como justo no Chile. Sou casado, tenho quatro filhos que me ajudam intensamente na Obra Missionária. Minha esposa chama-se: R, meus filhos: R, F, M e J. Tenho um filho adoptivo chileno que se chama E de 19 anos. Estava vivendo na rua, dormindo nas pracas e na praia. Deus cambiou sua vida. Está vivendo conosco há um ano e meio.Orem por nós para que Deus possa nos ajudar a conseguirmos um sustento, para que näo voltemos ao Brasil. E necessitamos dessa decisäo até o fim de Março porque meus filhos tem que estudar, e ainda näo estäo estudando por näo termos condicöes de pagar as matrículas e comprar os materiais escolares. OREM POR ISSO! Saludos a todos ustedes. Vuestro siervo en Cristo, Missionário BJ.

Resposta

Amado irmão BJ. Essa é a situação de inúmeros missionários. Estarei conversando com a direção de missões de nossa igreja para ver se a gente tem
alguma ideia. Uma das razões de nossa Conferência Missionária é justamente para tratar desses assuntos de missões no Brasil. Resumidamente, me fale de sua vida, chamada e preparo para o Campo Missionário. Qual foi a igreja que os enviou? Por que pararam o sustento? Em Cristo. Pr. Julio B. Pinto

A carta seguinte

Companheiro. Seu e-mail ascendeu uma nova chama de esperança. Eu estudei na Escola de Missiöes (nome da escola e da denominação) Sou credenciado na Secretaria Nacional de Missöes sob o n° 1566. Fiz estágio no Paraguai, onde nossa turma conseguiu ganhar para Jesus, 780 almas na cidade de Pedro Juan Caballero, fronteira com Mato Grosso.Fui enviado pela Igreja tal, em tal cidade, pastor EM. Após a direção da igreja verem que Deus tinha me chamado, me enviaram a Estudar na Escola de Missões. Fiquei em regime interno, e minha Igreja me sustentou em tudo. Voltei e entäo começaram as lutas. Fiquei de 2000 a 2003 sendo interrogado, avaliado, etc. Fizemos um culto de envio para o campo, e viajei com minha família, sem recursos nenhum. Só tinha R$ 700 reais, para uma economia agressiva como a chilena. Mesmo assim, me prometeram ajudar, enviando sustento, etc. Mas a fé que eu tinha, era inabalável. E assim, temos vivido sem salário até o día de hoje. Voltei ao Brasil em Abril do ano passado, e novamente conversei com meu pastor e os obreiros, e renovei o acordo com eles.

Voltei para o Chile, em uma viagem de 04 días de onibus, com crise de rins, urinando sangue toda viagem. Cheguei em casa, fui direto para o hospital. No mës de julho do ano passado eles enviaram as passagens para eu voltar ao Brasil. Mas eu näo quis voltar, pelas coisas que Deus está fazendo em nossa igreja, e pela necessidade que essa nacäo tem de voltar-se para Deus. Estamos com as passagens em aberto, porém, como as coisas estäo, näo suportamos mais. Viver assim näo é possível!

Estamos sem auxílio Ministerial, Emocional, Psicológico, näo temos com quem nos desabafar, solicitar ajuda, pedir socorro. Minha esposa está desgastada, meus filhos estäo chocados com essa situacäo. Sem estudar, porque näo temos como pagar as matrículas nem comprar material. Minha esposa está um ano e sete meses sem fazer uma consulta médica (ginecológica), meus filhos sem ir ao dentista, sem roupas, calçados, etc. Eu creio que o irmäo pode imaginar nossa situacäo. Por outro lado a igreja está crescendo, avivada, estamos trabalhando com uma comunidade difícil, por causa das drogas, roubo, homicídio, tráfico, etc. O melhor de tudo é que Deus está respaldando. Seu amigo e servo. Pr. BJ Santiago - Chile

Dois anos depois

Amados. Que a doce Paz de nosso Jesus, esteja com todos vocês. Está se aproximando um final de ano a mais no Campo Missionário. Faz 3 ½ que estamos no Chile, fazendo a obra do Senhor. Neste período, descobrimos verdadeiramente o agir de Deus. Se foram as emoçöes dos Congresos de Missöes, dos Cultos Missionários, das Manhäs Pentencostais Missionárias, dos Cultos com trajes e comidas típicas, e veio a realidade do Campo Missionário. Algo que só vai sentir quem já viveu esta indescritível experiência. Nos sentimos "chilenos" em täo pouco tempo! Mais parece que já vivemos aquí há anos.
É um país difícil para o Evangelho onde a credibilidade ministerial está no chäo. Ser pastor no Chile é servir de "escândalo"; ser pastor no Chile é ser adúltero, ladräo, corrupto, enfim, é ser um aproveitador a mais. O Chile, é considerado o país mais preconceituoso de América do Sul. É um país com extratificação de classes sociais, é um país caríssimo de se viver. Se paga a educaçäo municipalizada, a saúde, näo é um país industrializado, razäo de estar entre o segundo e terceiro país mais caro da América Latina para se viver. Todas estas realidades eu näo entendia. Confesso que cheguei no campo cheio de ideais e emoçöes, animado, mas depois de três mêses neste país meu desejo era voltar para minha pátria. Além do mais, é um país geladíssimo e sísmico, onde o útlimo tremor de terra que tivemos em Santiago, há um mês atrás, foi de 5,6 graus. Tudo isto, por mais simples que pareça, se näo tivéssemos uma chamada verdadeira e näo estivéssemos convictos do que Deus quería fazer com nossa família, já teríamos voltado ao Brasil. Viva o Brasil!
Superamos dificultades que ainda näo aceitamos, mais as superamos. Passamos fome, vi meu filho desmaiar de fome, vivemos necessidades terríveis. Para que os amados tenham uma idéia, faz anos que minha familia näo faz um "check-up" médico. Neste período que estamos aquí, nossa vida tem sido um grande milagre. Relatar tudo que vivemos, é imposível, porque o dia a dia no Campo Missionário näo é como muitos aficionados por missöes pensam. Missöes näo é só evangelismo, pregar, expulsar demônios, falar de Jesus a todo tempo. Não. Missöes também é vida emocional, psicológica, pagar aluguel, manter sua família, ter falta de medicamento, falta de roupa e calçado, falta de um gabinete pastoral. O missionário só dá e näo recebe por anos, e ainda para muitos, é tido como turista. A maioría das igrejas que enviam um missionário ao campo, näo cuida dos mesmos como se deveria cuidar. Exige relatórios, relatórios e relatórios, mais se esquecem das necesidades básicas do missionário. Näo se comunicam, nenhuma carta, nenhum email, nenhum telefonema. As esposas dos pastores näo se comunicam com as esposas do missionário, os filhos dos pastores näo se comunicam com os filhos dos missionários, enfim, definitivamente o missionário foi chamado para sofrer, e se näo sofrer como se deve sofrer, näo é missionário. Missionário que é missionário, tem que passar fome, necesidades. Deus tem que curar suas enfermidades, fazer aparecer dinheiro no chäo, na rua, no guarda-roupa, etc. E melhor ainda, de visita ao Brasil, tem que contar tudo isto. Como me falou um Secretário de Missöes em visita ao Chile, "você está no deserto de Deus, na escola de Deus". É verdade, nesta frase vejo a limitaçäo dos nossos agentes missionários, completamente leigos sobre o tema.
Hoje, depois deste período, eu sei em quem tenho crido. Falo como Jó: "antes eu conhecía a Deus só de ouvir falar, mais hoje, os meus olhos o contemplam". Hoje eu sei o que é fé, sei o que é evangelho, sei o que é pregar e ter resultados, e näo ser um "profissional de púlpitos" como está cheio no Brasil. Pregaçöes como "Sete Tópicos de um Gideäo Missionário" näo passam de falácias desconhecidas do tema.
Sou missionário e me orgullo de ser. Nesta carta quero agradecer a três homens de Deus que acreditaram em mim, no "Proyecto Chile". Ao meu pastor presidente Josias Martins, MSF – Angra dos Reis, RJ, ao meu amigo pastor Manassés Brito, AD Campinho – Jacarepaguá, RJ, e a um amigo em particular, pastor Julio B. Pinto, dos Estados Unidos. As conquistas aqui no Chile devo ao apoio que tenho e tive em momentos cruciais, como foi a ajuda do Pr. Julio Barcellos Pinto no ano de 2004 aquí no Chile.
Falar do Pr. Manassés, este grande homem de Deus, é recordar o que ficou gravado nos coraçöes dos nossos primeiros membros aquí no Chile. A chegada daquela comitiva deu uma arrancada na obra missionária. Mais que isto, serviu de exemplo para mim, minha familia (esposa e filhos), e novos membros da recém-formada igreja. Um homem com o êxito que tem no Brasil e no exterior, transmitir tanta simplicidade, humildade, amor com a minha familia e com a obra missionária, foi incrível! Supriu minha casa com itens importantes, meus filhos com utensílios escolares, enfim, marcou nossas vidas. Temos uma saudade incrível dessa comitiva. O ímpeto para evangelismo, o culto realizado na garagem da nossa casa, a investida do diabo contra ele, sua esposa e contra os pastores Bernardino e Edmilson, foram experiências marcantes para o crecimento do trabalho aqui no Chile. Os amamos muito e sentimos muitas saudades.
Pastor Julio Pinto foi um amigo enviado por Deus em um momento de muita angústia, quando estávamos desesperados e vivendo nossa maior crise no campo missionário. Este grande homem de Deus, que ainda näo conheço pessoalmente, mais irei conhecer logo, para abraçá-lo com a minha família, me ajudou com oraçöes, conselhos via email, e financieramente, quando o meu filho desmaiou de fome por duas vezes. Tenho uma estima muito grande por este servo de Deus, e um día, creio que não muito distante, Deus me proporcionará conhecê-lo.
Meu pastor presidente… é um pai para mím e minha familia. Pastor Josías investiu no meu ministério sem me conhecer. Me abriu os braços e me acolheu, juntamente com minha esposa e filhos, em um momento super difícil, e até hoje me mantem no campo missionário. Abraçou o "Proyecto Chile" sem ler, sem saber o que realmente era ou de que se tratava, simplesmente confiou em mim. Hoje, o resultado está aí! ¡Dios és fiel! O estimamos muito. Sempre terá meu respeito e total obediência.
Começamos com algunas famílias em uma casa, crecemos, agora estamos em um templo com mais de 120 pessoas congregando, fiéis, ajudadoras; fizemos dois batismos neste ano, formamos obreiros autóctones, conseguimos um Instituto Teológico, patrocinado pelo IBADEP – Instituto Teológico da Assembléia de Deus do Paraná, para nos apoiar nessa tarefa. Serão dois anos de ensino teológico. Estamos abrindo um núcleo de teología em Los Angeles, cidade no sul do Chile. O que Deus está fazendo conosco aqui é coisa grandiosa. Estamos propondo a compra de um terreno de 1.000 m² onde, no nome de Jesus, vamos construir e realizar o Projeto que Deus colocou em nosso coraçäo para esta naçäo. No ano de 1986 Deus me chamou para o Chile. No ano 2000 ele reavivou esta chamada, e em 2001, pela primeira vez, no mês de julho, coloquei os meus pés no Chile. Em 2003 voltei com toda minha família depois de um pequeno período no Brasil, e aqui estamos até hoje. Temos um projeto em fase inicial. Creio que com a ajuda do nosso Deus vamos conseguir concluí-lo. Missöes, aprendi que näo se faz com imediatismo, e sim se investindo tempo. Cada missionário está envolvido com o povo que Deus o deu. Missöes näo é algo rotativo, missöes é inversäo de tempo, é ter o obreiro ideal para a naçäo ideal. Por isso, antes de dizer que meu coraçäo está nesta naçäo, tenho que analisar todos os aspectos que envolvem a obra missionária.

Está se aproximando mais um final de ano. Para nós no campo missionário, gera-se uma expectativa diferente. Por que? Já estamos acostumados a enviar cartas para pessoas que se comprometeram em nos ajudar, em sempre telefonar, enfim, estamos nós missionários já acostumados com esta "Emoçäo Missionária". Mais mesmo assim, enviamos nossa Petiçäo de Final de Ano. Näo com histórias comovedoras, mais com o apêlo de que tenhamos, ao menos, um Natal digno, com alegría financeira para nossa familia. Afinal, temos filhos, e quem é pai de familia ou pastoreia igreja, sabe o quanto é difícil para nossos filhos, principalmente no campo missionário, longe do nosso país. Nossos filhos, têm o privilégio de conhecer outra naçäo, outra cultura, outros costumes, mais por outro lado, se privam de serem normais como os demais. Se privam de presentes nesta e em outras ocasiöes, se privam de uma roupa nova, ou um calçado novo, e de muitas outras coisas, porque, como muitos pensam, obra missionária é viver com com escassez, conceito de muitos, por.em não bíblico, conforme Filipenses 4.10 e 3 João 2. ¡Que Dios te Bendiga! Orem por nossa família. Pr BJ e esposa RM, e filhos: R, F, M e J.