Comunidade evangélica brasileira que reside nos EUA confronta desafios éticos para se manter como imigrante
Diante da ilegalidade
Nilza Valéria - Revista Enfoque
O jornal Brazilian Times é lido pela comunidade brasileira nos Estados Unidos. Com uma tiragem de 50 mil exemplares por mês, circula pelos estados americanos onde os brasileiros estão presentes. “E como há brasileiro em todo lugar por aqui, estamos em todos os lugares”, diz o colunista Flavio Portugal. Não é um jornal religioso, apesar de ter uma coluna escrita pela missionária Marleide Lima, da The Gospel Voice Ministry. Quem folheia a publicação também percebe o quanto há de evangélicos por lá. Nos classificados, as ofertas de quartos e apartamentos dão preferência a evangélicos. E há dezenas de anúncios de cultos ministrados em português. Na ultima edição, Marleide escreveu sobre o novo açougue brasileiro onde, além de carne, é possível encontrar diversos produtos do Brasil como refrigerantes, enlatados, sucos, CDs e DVDs.
Clara Silva, 23 anos, é freqüentadora assídua de um desses cultos, na Igreja Batista de Pompano Beach, na Flórida, que tem mais de mil membros. “Sei que aqui tem gente de tudo quanto é jeito, de tudo que é lugar. Da minha cidade, no interior de Minas Gerais, já encontrei uns cinco.” Vivendo na Flórida há quase um ano, ela trabalha numa churrascaria. “Não foi fácil chegar aqui e não é fácil permanecer. Tenho de armar um monte de esquemas para fugir da imigração. Mas acredito que isso é importante para minha vida. Quero realizar meus sonhos.” O discurso de Clara é como o da personagem Sol, da novela “América”, exibida pela Rede Globo, baseado no desejo de consumir, de ajudar a família, de ver o resultado do trabalho virar imóveis e automóveis no Brasil. A família de Clara, que era contra, hoje é a favor e pede orações para que a situação da filha seja logo legalizada. “Vendo a novela, minha mãe até me sugeriu que eu 'compre' um casamento, para obter o greencard.”
Em maio deste ano foi realizado em Boston o Primeiro Congresso Internacional da Brazilian Ministries Network (BMNet), com apoio da ONG Visão Mundial, direcionado aos evangélicos brasileiros que vivem nos Estados Unidos. Os preletores foram o sociólogo Paul Freston, professor do Calvin College, em Michigan, e o pastor Ricardo Gondim, da Assembléia de Deus Betesda, em São Paulo. Mais de 700 participantes passaram pelo evento, segundo o gerente de Comunicação e Marketing da Visão Mundial, Ronaldo Martins, para quem o grande mérito do congresso foi a oportunidade de as igrejas da região de Boston terem um espaço de diálogo. “Eles nunca haviam se reunido para discutir a situação da Igreja brasileira nos Estados Unidos e a dos 'indocumentados', dos seus membros ilegais.”
Trabalhando numa pesquisa sobre a presença evangélica brasileira em outros países, Paul Freston analisou como se organizam as igrejas nos Estados Unidos, onde a maioria tem entre 30 e 50 membros. “A Igreja oferece sustentação para as pessoas quando elas chegam, além de fornecer uma rede social que as ajudam desde a encontrar um lugar para viver, até apoio emocional.” Para o sociólogo, que já fez a pesquisa na Inglaterra, Japão, Paraguai e agora nos Estados Unidos, a questão é saber se a Igreja brasileira fará diferença, promoverá um avivamento na nação americana ou irá se aculturar. Freston propôs que a Igreja pense na criação de uma teologia do “indocumentado”, ressaltando que não é possível fingir que não acontece nada.
Sandro Canuto, 36 anos, há dez anos vivendo nos Estados Unidos, ficou incomodado com o que ouviu. “Eu cheguei como ilegal, mas acreditando estar fazendo o que era certo, que Deus havia me dado uma ordem de buscar um caminho melhor para a minha família. Agora me dei conta de que minha fé foi apenas um fomento para minha ambição pessoal”, explica ele, que assim que chegou em solo americano foi ajudado por uma igreja evangélica. “Foi o pastor, que também havia chegado como ilegal, mas já havia obtido o visto religioso, quem me ajudou a arrumar emprego e conseguir os documentos.”
Estima-se que haja hoje um milhão de brasileiros nos Estados Unidos, legais e ilegais. Lá, em uma cultura diferente e para afastar a solidão, cresce a procura por serviços religiosos, e os cultos evangélicos, de brasileiros, estão sempre se ampliando. Ricardo Gondim afirma que também saiu do congresso irrequieto, lembrando que a ética evangélica apenas prioriza alguns pecados que culturalmente foram ensinados como mais graves: bebidas alcoólicas, adultérios e até ir a um estádio de futebol ou dançar a valsa na formatura dos filhos. Mas quando a ética cristã é confrontada com a necessidade de conviver com outras circunstâncias - pagar a um mexicano para atravessar a fronteira, mentir para o oficial da imigração, dirigir sem carteira de motorista -, ela passa a ser pequena e há mais condescendência. Para Gondim, nos Estados Unidos, se os pastores não forem mais humanos e mais flexíveis com o seu rebanho de “ilegais”, acabam sozinhos. “Os crentes da diáspora podem ensinar aos que ficaram aqui que viver é muito mais complexo do que se acreditou no passado e que o rigor da ética puritana e vitoriana gerou hipocrisia, ferindo muita gente.”
A missionária Valeria de Almeida, que trabalha nos Estados Unidos há 14 anos, aponta uma outra situação que ocorreu por algum tempo. “Fui orientada a ser estabelecida legalmente e não trabalhar com igrejas brasileiras, que na época estavam envolvidas com diversos problemas. Muitas não eram legais e outras - para o pastor ter membros legalizados - usavam estes membros como funcionários da igreja. Houve igreja com 15, 20 funcionários.” Segundo Valeria, essa situação ocorria, pois a Igreja tinha condições de regularizar, legalizar a permanência de um imigrante. “Por meio do visto religioso, a pessoa conseguia o visto permanente.” O alto número de igrejas se legalizando e pedindo o visto religioso para seus funcionários aplicados chamou a atenção do Departamento de Imigração, que passou a visitar as igrejas para conferir documentação, por meio de um setor criado especificamente para isso. “Houve gente sendo presa por estar vendendo vistos religiosos.”
Ilegalidade
Valéria reconhece que houve um momento em que alguns pastores da Flórida se incomodaram com a situação. “Há igrejas que estão estabelecidas lá há anos e que têm um testemunho cristão efetivo, além de prática da fé cristã, e estas igrejas começaram a condenar essa situação.” Helen, 30 anos, sabe muito bem do que Valéria fala. Em 1992, decidiu sair da Tijuca, no Rio de Janeiro, para tentar a vida nos Estados Unidos. Foi direto para Connecticut, onde encontrou uma comunidade evangélica brasileira. “Meu sonho virou pesadelo. A única ajuda que me ofereceram na igreja foi em troca de dinheiro; queriam que eu pagasse para ter condições de trabalhar. Eu ia aos cultos e quando acabava, todo mundo sumia. Cheguei no meio do inverno e mal tinha roupas para vestir. No lugar em que morava não havia aquecimento, e a água congelava nos canos. Com muita dificuldade, sobrevivi três meses. Com ajuda da minha família e do Consulado brasileiro consegui voltar para casa”, lembra, dizendo que chegou a pensar em tentar de novo fazer a vida na América. “Meus pais e meu pastor me fizeram desistir e reconhecer que meu valor não está em ter dólares. E que isso não vale qualquer preço.”
São igrejas como a que acolheu Helen que fazem com que a sociedade americana olhe desconfiada para comunidades evangélicas de brasileiros. “Hoje, quando se olha para a comunidade cristã, para as igrejas e para o corpo pastoral na Flórida, existe uma certa desconfiança, há dúvidas sobre a credibilidade. Existe a visão de que a Igreja brasileira é a Igreja da bagunça, problemática, a Igreja que usa meios ilegais para tentar legalizar o seu membro”, analisa a missionária Valeria, que trabalha como radialista na rádio Voz Cristã, na Flórida.
Olhar para dentro
Quando Ricardo Gondim retornou do Congresso Internacional da Visão Mundial disse que o distanciamento geográfico e cultural das lideranças evangélicas brasileiras que vivem nos Estados Unidos jogam luz sobre a realidade da Igreja aqui, no Brasil. “Os evangélicos brasileiros acreditam mesmo que foram chamados para mudar o mundo, mas temos uma teologia sem conteúdo, além de uma missiologia não-transparente. Poucos têm coragem de admitir que há interesses financeiros detrás desta nova onda missionária para países do Primeiro Mundo. Não há nada de errado em ser imigrante. Não é imoral sair de sua terra em busca de melhores oportunidades para si e sua família. Querer viabilizar projetos eclesiásticos com moeda forte não é condenável. Tentar maquiar isso como um chamado divino, está errado. Afirmar que a Igreja ouviu um mandado de Deus para evangelizar a Europa e os Estados Unidos não parece honesto. Por que será que Deus não chama mais obreiros para os campos de refugiados de Darfur? Não há interesse de Jesus pelas clínicas que socorrem milhões de pacientes com Aids no Continente Negro?”
Teologia do imigrante
Desde 1997, Josimar Salum está nos Estados Unidos. Migrou como missionário. É pastor em Worcester, Massachusetts, além de fazer parte da BMNet. Ele prefere usar o termo “indocumentado” no lugar de ilegal. “O termo técnico e político é ilegal. Na teologia do imigrante usamos 'indocumentado', que é misericordioso, pois ilegal mesmo é o diabo.” O visto B1-B2 é concedido pelo Consulado americano para turistas, e pela lei, os que entram nos Estados Unidos com este visto não podem ser preletores, apenas ouvintes. De acordo com Salum, que também é professor num seminário teológico, "95% dos pregadores que vêm falar aqui têm esse tipo de visto. Estes pregadores visitantes, ao pregarem sem autorização, são ilegais por uma semana ou por um mês ou dois. Os outros, por muitos anos. Dá no mesmo. Alguns pregadores brasileiros aqui afirmam que os 'indocumentados' devem voltar para o Brasil. É intrigante usarem o púlpito para dizerem isso e mais intrigante ainda quando recebem nossas gordas ofertas em dólares americanos”.
Com carro do ano na garagem, tanto nos Estados Unidos, quanto na casa dos pais, na Baixada Fluminense, Sandro Canuto faz questão de frisar que a casa é própria. “Meu pai sempre foi trabalhador e nunca conseguiu comprar uma casa. Com quatro anos de trabalho aqui consegui juntar dinheiro para comprar um apartamento para eles, lá em São João de Meriti.” Ainda avaliando se valeu a pena ter corrido o risco de ter vivido ilegal por alguns anos, Sandro não fechou questão. “Não tenho como voltar no tempo e não consigo me imaginar trabalhando pesado para ganhar dois salários mínimos como meus primos, lá no Brasil. Será que comigo seria diferente? Será que iria conseguir chegar na universidade? Eu ganho mais aqui que médico de posto de saúde, no Rio. Só que agora é fácil eu dizer que dinheiro não é tudo. Eu tenho dinheiro.”
Reginaldo Braga, quando foi para os Estados Unidos, era pastor, advogado, engenheiro e professor de português. Foi há 11 anos. Lá fez mestrado e doutorado na área de Novo Testamento e educação. Hoje é pastor de uma comunidade em Nova York. E como diz, não é uma igreja de brasileiros, mas, sim, de imigrantes de todas as partes. “A Igreja é de todos e para todos e não faz sentido se ela não for multicultural.” Ele, que tem visto religioso, é capelão-líder da Cruz Vermelha americana na cidade. “Nossa atuação no ataque de 11 de setembro fez com que chegássemos nisso.” A igreja multicultural que ele lidera atua como uma organização não-governamental, desenvolvendo projetos de promoção de justiça, cultura e arte. “Leis são direito posto. Como disse o pastor Dietrich Bonhoefer, preso e morto por Hitler, por fazer parte de uma conspiração contra o nazismo, a ética não é fechada e deve responder às circunstâncias do tempo presente, da situação. O que vem antes da imigração? Não podemos ser Igreja sem fazer uma interface com a sociedade americana. Toda essa discussão sobre ser legal ou ilegal não pode ser simplista. Temos de parar com isso - de a Igreja estar contra o mundo - e, sim, pensar no que implica ser Igreja no mundo”, ensina.
A experiência de dois pastores brasileiros
Luiz Sayão morou um ano e dois meses nos Estados Unidos. Retornou para São Paulo depois de não conseguir o visto para continuar trabalhando na Portuguese Baptist Church, em Boston. “Desde janeiro desse ano ficamos 'presos' no país. Não podíamos sair, pois não havia garantia de retorno”, conta Sayão, lembrando que nesse período a igreja ia se desenvolvendo, “dobrou o numero de membros e o potencial financeiro”.
No processo de imigração, a igreja não foi aprovada como patrocinadora. “Ficamos sem visto, sem processo e sem patrocinador. Diante disso a própria Portuguese Baptist Church decidiu que devemos retornar com um novo patrocinador. Quando todas as etapas forem vencidas, devemos voltar a Boston, com a permanência legal oficializada pela imigração americana.”
Vitor Hugo Mendes de Sá, que hoje é pastor da Primeira Igreja Batista de Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, ficou dois anos na região de Washington. Pastoreava um pequeno grupo que estava se organizando na cidade de Gaithersburg e tinha o apoio de uma grande igreja americana. “Eu e minha família estávamos legalizados e não enfrentamos problemas.” A dificuldade que ele conta foi ministerial. “Tive dificuldade para entender minha ação pastoral. Até então, aqui no Brasil, desenvolvi ministérios dinâmicos, e lá, pela realidade da sociedade e das condições dos imigrantes, que tem o propósito de ganhar dinheiro, a igreja é vista em plano secundário.”
No grupo, de acordo com o pastor, 60% dos membros era ilegal e vivia de subempregos. “Mesmo ilegais, eles necessitavam de apoio espiritual, psicológico e até material. Como pastor, não podia deixar de atendê-los. Isso seria puni-los ainda mais. Eles estão lá porque não tiveram oportunidades aqui.” Por estar na região de Washington, os outros membros do grupo estavam ligados às comissões diplomáticas, além dos que participavam de projetos no Banco Mundial e órgãos de pesquisas e cooperação internacional. Gente que não se assusta quando a Imigração passa por perto.
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