Ultimato, Edição 292, Janeiro-Fevereiro 2005

Uma nova Macedônia: brasileiros nos Estados Unidos

Valdir Xavier de França

A razão principal para a imigração de brasileiros para os Estados Unidos é econômica. Indocumentados1 e trabalhando no setor de serviços limpando casas, prédios, servindo em restaurantes, supermercados, hotéis e em construções, sustentam suas famílias no Brasil com o dinheiro que conseguem aqui e enviam para casa. Mesmo recolhendo o imposto de renda, nunca irão receber benefícios do governo americano, exceto serviços de emergência em um pronto-socorro.

Com muitos sonhos na bagagem, eles querem fixar residência, ter uma experiência transcultural, melhorar o casamento ou resolver dificuldades emocionais no Brasil. Mas a maioria quer mesmo é pagar suas dívidas no Brasil e economizar para o futuro. Muitos desejam voltar à pátria amada, mas tão logo percebem que têm uma situação melhor e estável aqui acabam decidindo ficar permanentemente.

Exilados e sem documentos, e com muita saudade daqueles que deixaram para trás, eles fazem tudo o que podem para obter a liberdade e saírem das sombras de um futuro incerto.

A questão contextual: imigrantes indocumentados

Quero aqui refletir sobre a questão contextual dos imigrantes indocumentados e as implicações éticas para a igreja brasileira na diáspora. Pois a falta de documentação própria desafia a fé e a ética cristãs, e impõe o dilema do que é absoluto e do que é relativo para aqueles que vivem ilegalmente aqui e participam de nossas igrejas.

Diante desse exílio econômico, o maior desafio para os exilados é o poder do desespero. Em desespero, muitos querem resolver seus problemas a todo custo. Para conseguir emprego, a grande maioria paga por documentos falsos. Outros pagam a um cidadão americano para casar-se e assim obter documentos pelo casamento. Até mesmo pessoas casadas pensam em trilhar esse caminho, arriscando seus casamentos.

A fronteira mexicana é a “porta da esperança”, onde está a tragédia. A lei é pervertida por inescrupulosos que fabricam casos de asilo com base em histórias irreais de perseguição política.

O governo2 tem intencionalmente marginalizado ainda mais os imigrantes indocumentados, tirando-lhes até mesmo direitos básicos como educação e assistência à saúde, o que vem se agravando desde o início do atual governo. Tirar e renovar a carteira de motorista se tornou um problema que afeta grandemente a luta pelo pão de cada dia e o ser identificado como indivíduo.

As implicações éticas para a igreja entre imigrantes indocumentados

Para nós resta a possibilidade de articular a vida no exílio e considerar o fato de que como cristãos somos chamados a compartilhar as boas novas com todas as pessoas, incluindo os estrangeiros, os indocumentados, os ilegais (Lv 19.34). Essa igreja não deve tentar definir membresia e liderança com base no fato de se ter ou não o Green Card. O único critério para se tornar membro da igreja é pela fé e pelo batismo.

Essa realidade exige de nós flexibilidade, a ponto de se preservar a vida no exílio, da mesma forma que Deus usou as parteiras para preservar a vida no Egito (Êx 1.15-22). O contexto requer um novo entendimento do que significa ser igreja de Cristo na marginalidade. Como eu posso, em um contexto transcultural, como testemunha cristã, responder às diferenças na percepção das pessoas sobre o pecado? Quais os paradigmas que deveríamos preservar como brasileiros nos Estados Unidos?

Queremos ser uma igreja responsável e ao mesmo tempo profética, que não alimente o cinismo, mas entenda as discrepâncias entre os ideais e o comportamento a fim de não produzirmos uma moral frustrante em vez de esperança cristã. O que precisamos é contar com a assistência do Espírito Santo em relação aos nossos próprios paradigmas (Rm 2.15,16). Indocumentados ou não, seremos todos julgados por Deus.

As dificuldades que temos com essa matéria não devem nos impedir de ser a Igreja de Jesus Cristo neste contexto nem nos conduzir ao desespero, nos tornando uma igreja amoral.

Notas

1. O Serviço de Imigração e Naturalização chama de ilegais, aqueles que atravessam a fronteira mexicana sem nenhum documento. Os indocumentados são aqueles que chegam aqui legalmente, mas que trabalham sem ter a permissão apropriada para tal. Brasileiros fazem parte deste ultimo grupo.

2. Ato da Reforma de Imigração Ilegal e Responsabilidade dos Imigrantes de 1996.

Valdir Xavier de França é ministro da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos (PCUSA) e trabalha com a diáspora brasileira. É mestre em missiologia e doutorando em plantação de igrejas.