Missionários clandestinos?
(em resposta aos artigos abaixo também veiculados pela www.uniaonet.com)
http://www.diasporabrasileira.com/artigos/gondim.html
http://www.diasporabrasileira.com/artigos/josimar.html
Camilo – Marinha Grande - Portugal
Prezado irmão Yrorrito.
Estive a ler os interessantes artigos sobre o assunto na tua página na internet, na secção http://uniaonet.com/comin.htm com as opiniões do Presbítero Ronaldo Martins e do bem conhecido Pastor Gondim, bem como do Pastor Josimar Salum. Posso identificar-me em quase tudo com os dois primeiros, mas gostaria de acrescentar alguns comentários.
Nunca estive na América, mas por aquilo que conheço de Moçambique, onde nasci, de Portugal onde moro, e da Índia onde vou com certa frequência, vejo que esses problemas não acontecem só na América.
Segundo afirma o Presbítero Ronaldo Martins, “Alguns partiram para a América à procura de melhor sorte e, chegando lá, perceberam que poderiam exercer o pastorado.”
Parece que essa situação está ultrapassada, pois tenho visto, até na tua página, alguns ou algumas jovens, identificarem-se como missionários/as em África ou no Oriente etc. e pedirem ajuda material, mesmo antes de saírem do Brasil e nem sabemos se algum dia irão deixar a sua terra.
“Entre os imigrantes há uma carência de afecto e de contacto com a cultura brasileira, o que torna a busca da religião um desejo por vezes renovado.”
Estou perfeitamente de acordo. Tenho visto um certo fenómeno de aglutinação dos imigrantes que temos em Portugal, quer sejam brasileiros, ou angolanos, ou ucranianos, ou russos etc, que é mais forte do que as convicções doutrinárias ou fidelidade denominacional. Há missionários brasileiros com deficiente preparação que chegam a Portugal e só conseguem evangelizar outros imigrantes brasileiros e nenhum português, facto que vem confirmar a oportuna observação do Presbítero Ronaldo Martins.
Como “não brasileiro”, tenho observado que as igrejas evangélicas brasileiras, duma maneira geral, têm um método de evangelização com base na música, com forte emoção e pouca reflexão. Quando os crentes brasileiros se integram em igrejas portuguesas, para cantar são os melhores e por vezes são os que iniciam os cultos com todo o seu entusiasmo, mas quando há escola dominical participativa, em que se espera que todos intervenham, ou em debates teológicos, o crente brasileiro é muito raro participar com a sua opinião.
Penso que isto é o resultado do tipo de cultos que vi no Brasil, com mais emoção do que reflexão e dum certo abandono da escola dominical participativa para adultos. Nunca tive oportunidade de participar numa escola dominical no Brasil.
Penso que foi muito oportuno, este problema dos métodos pouco correctos utilizados por muitos missionários brasileiros, ter sido ventilado na América. Se fosse em alguma Conferência no Rio ou em São Paulo, não teria o mesmo impacto porque a maior parte das igrejas evangélicas brasileiras é muito mais influenciada pelo que se passa na América e pelo que dizem os americanos, devido a uma certa subserviência cultural.
As conclusões não foram novidade, para quem, como eu, já conheceu alguma coisa da realidade de grande parte dos missionários brasileiros no seu campo de trabalho.
Creio que, de acordo com os planos do Senhor, todo o crente é, ou deveria ser um missionário. No entanto, o “missionário oficializado”, ou “missionário legalizado” por uma igreja, é uma situação apetecível por muitos crentes, pois isso lhes confere o direito de cobrar dízimo e funciona como uma espécie de cartão multibanco, ou cartão de crédito. Até já há algumas “multinacionais de evangelismo” que oferecem o título de missionário ao fim dum curso de cinco meses, o que para muitos tem sido uma alternativa ao desemprego no Brasil.
O sistema que utilizam vulgarmente para entrar, não só em Portugal, como na Índia (falo só do que vi), é o visto de turista. Na Índia o visto tem de ser renovado periodicamente em Bangladesh que é mais barato, ou na Tailândia, se conseguirem convencer os seus mantenedores dessa necessidade, pois é muito mais agradável ir à Tailândia que é mais bonito, desenvolvido e preparado para o turismo. Em África, também é o visto de turista.
Também aqui em Portugal, a grande maioria dos “missionários” brasileiros, alguns sem a nossa escolaridade mínima, entra com visto de turista.
Parece que já entrou na cultura “evangélica”, servirem-se dessas falcatruas para “servir ao Senhor”, como dizem, pois se perguntar a algum brasileiro em Portugal, porque veio para cá, geralmente todos dizem que estavam desempregados ou vieram procurar melhores condições de trabalho. Os únicos que se sacrificaram para servir ao Senhor foram os “missionários”. Bem sei que essas ilegalidades e falsas informações utilizadas pelos missionários brasileiros são toleradas por muitos pastores. Mas será que tem o apoio do Senhor? Que credibilidade poderá ter um missionário nestas condições?
Penso que o grande problema, é a maior parte dos evangélicos terem passado por um “suicídio intelectual” que confundem com a verdadeira conversão a Cristo, que não prescinde de toda a nossa capacidade intelectual, que deve estar ao seu serviço.
Assim, é a cultura e a tradição evangélica que define o que é pecado e o que não é pecado. Os casos citados, de trabalhar ilegalmente, ou mentir às autoridades de imigração, ou fugir aos impostos, parece que não constam do cânon ou da lista de pecados da maior parte das igrejas evangélicas. Aprendem a preocupar-se com os dalits (párias ou intocáveis na Índia) mas não reparam nos “sem terra” ao seu lado. Aprendem a combater o alcoolismo e o tabaco, mas nada lhes disseram do vício do café que é servido nas próprias igrejas evangélicas.
Já é tempo de permitir que o Senhor fale directamente ao seu povo, em vez de ser só através do pastor que repete o que aprendeu no Seminário e o Professor de Seminário ensina o que aprendeu com o missionário que veio da América e nada se preocupou com a cultura brasileira. Isto é o que chamamos de “tradição evangélica”.
Já é tempo de dar lugar ao Senhor.
http://www.estudos-biblicos.com 11/06/05