Complexo de Imigrante

O moço nasce e cresce sem se preocupar com o futuro. Na adolescência começa a sonhar. A menina do interior pensa num bom casamento, as mais dedicadas ao estudo pensam em ser professora. A vida começa a deixar de fazer sentido quando os problemas dos pais e as dificuldades até então camufladas pelos tempos de brincar, passam a assumir lugar de um monstro da realidade.

O migrante brasileiro, abrangendo várias idades, se translada à cidade grande como um peixe fora d'água, um corpo sem ligações culturais que façam sentido.

A família e as amizades ficaram para trás. Em sua terra era conhecido, tinha nome; na metrópole é mais um tentando sobreviver e enviar algum dinheiro para quem ficara torcendo e orando por seu sucesso.

O tempo passa e sua base cultural se esvai. Seus amigos, possivelmente, passam ou passaram por experiências semelhantes. Muitos se tornam duros, insensíveis, vacinados. As meninas têm sorte pior, atacadas por propostas e encurraladas pelo senso de sobrevivência. Quando o dinheiro dura um pouco mais que o comum, uma viagem apressada de uma semana mata as saudades e põe em dia os assuntos por muito esquecidos. Como num túnel do tempo o migrante está de volta ao seu passado. Ali fora tratado como filho da terra, gente amiga confiável e conhecida. Por algum tempo se esquece das humilhações que, por amor aos parentes e amigos, ou por vergonha de ter maculado a honra, esconde e omite, mudando de assunto se sua privacidade é ameaçada.

De volta à cidade gigantesca que o espera com sons e odores que há muito se entranharam em seu ser, tem uma estranha sensação - ele gosta dali. Foi bom ter voltado no tempo e espaço, rever a dona da quitanda, conversar com os amigos de infância, agora casados. mas um estranho sentimento lhe diz que ali, na selva de pedra, nos tumultos do trânsito, ele encontrou seu destino. Como um híbrido terá de encarar a realidade de sua mutação. Não é mais a mesma pessoa da cidadezinha; não se adaptaria naquela roça, nem se sente como os que nasceram na capital. Quem sou eu? Com muitos anos de desvantagem em relação aos nascidos ali, trabalha em dobro, para tirar a diferença.

Agora casado, com raízes se aprofundando, trazer os parentes para visitá-lo ou acolhê-los como agregados, se torna o fruto de tantas madrugadas divididas entre um trabalhinho extra e cochilos no ônibus, ao caminho de casa.

O híbrido descobre que não é híbrido. É, na verdade, como a maioria: nômades por natureza, seres humanos no cosmo dinâmico. A idéia de que os naturais daquela região são privilegiados é vaga. A maioria que conhece está na mesma situação dele. O sucesso ou fracasso não depende da origem, mas da garra com que encararam a vida. Na verdade ele descobre que nativos daquela terra têm as mesmas preocupações, no entanto suas dificuldades não podem ser atribuídas à migração, o que os tornam mais decepcionados e frustrados.

Nós, com a desculpa de sermos estrangeiros em terra estranha, temos um aliado psicológico atuante e poderoso. Como o migrante do interior, nós, os imigrantes brasileiros, somos a princípio um povo sem terra, descalçado de sua cultura, afligido por todos os lados, mas vitorioso e de garra. A facilidade que temos em ajeitar, improvisar, superar, adaptar, serve de catapulta que nos lança ao trabalho como nunca experimentamos no Brasil. Quem já não disse: Se você trabalhasse assim no Brasil já estaria rico.

Estamos fazendo o que nossos antepassados fizeram. Ter coragem de desbravar um novo mundo e proporcionar aos nossos filhos um futuro que julgamos ser melhor. Nossas raízes, responsáveis pelo nosso calor, pelos valores de família, pela alegria irradiante, até em meio aos infortúnios da vida, jamais serão perdidas. Aos que aqui estão temporariamente, recebem de nós, os que nos alicerçamos em solo americano, suporte e ajuda para armarem suas tendas.

Descobrimos, depois que a tempestade passa, que outros barcos, tais como o nosso, vindos de todas as partes deste planeta, vagaram por um pouco à toa, mas foram norteados pelo mesmo altruísmo que um dia reunimos para enfrentar a fila, aquela fila que, com nosso destino em suas mãos, brincou de mamãe mandou bater nessa daqui - Pode buscar seu Visto amanhã. O que era utopia foi descartado, a realidade brotou em forma de conquista e nossa comunidade verde-amarela global, cada vez maior, mais organizada e espalhada, é o nosso Brazil, menor, com menos recursos, mas tão brasileiro - e às vezes até mais brasileiro - quanto o nosso Brasil, também nosso.

Julio B. Pinto
(Jornal Brazil Abroad Ano 1, número 2, pág 13)